molestam-me miríades marmóreas
(mamúteas moscas) monges mamelucos
- malévolos - mastigam m'ia memória
me melam merda - mosto - mijo - muco.
morféticos mastins mordem meu mastro
mortal martírio - místico monturo
marrom. Mercúrio-musa-mnemolastro
meleca mickeymáusica misturo.
mas, muitissimamente mallarmaico,
meu mundo, monastério-moscatel,
me mostra maculado meu mosaico.
Merencório macário. Morno mel
Masquei. Matei meu mim, morri mendaz.
Mil metros meço. Minto muito mais.
quarta-feira, 30 de maio de 2012
sábado, 28 de abril de 2012
XXVIII
Piranha, vagabunda e ordinária!
Não vales o que cagas, ó rameira!
Espero que tu morras de malária,
Lepra-aids, diarreia ou de frieira!
Não negas a xereca nem a um bode
E a satanás os bagos tu afagas.
És lixo que qualquer mendigo fode!
Terás ebola, artrite e mal-de-chagas!
E quando tua carcaça podre e fria
- Qual já tua alma é - jazer na campa,
Irei ali cagar com muito gosto.
E tendo, então, cagado a pedraria
Do teu sepulcro eu hei de abrir a tampa
E te esporrar, mijar, cuspir o rosto.
Não vales o que cagas, ó rameira!
Espero que tu morras de malária,
Lepra-aids, diarreia ou de frieira!
Não negas a xereca nem a um bode
E a satanás os bagos tu afagas.
És lixo que qualquer mendigo fode!
Terás ebola, artrite e mal-de-chagas!
E quando tua carcaça podre e fria
- Qual já tua alma é - jazer na campa,
Irei ali cagar com muito gosto.
E tendo, então, cagado a pedraria
Do teu sepulcro eu hei de abrir a tampa
E te esporrar, mijar, cuspir o rosto.
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
XXVII
Estou com hemorroida, ai!, que horroroso
Do maior bem da terra ser privado!
Pois não há no cagar mais nenhum gozo
Se se sangra no cu quando sentado!
Tentei de tudo! Um médico, um guru,
Um mago, um curandeiro, até um pajé.
Se cago dói! (ai!) como dói meu cu!
Ardido mais do que um acarajé.
(ai!) Como hei-de enfrentar meu existir
Se do conforto etéreo da cagada
Privado estou quem sabe até que dia!
(ui!) Antes perecer! Mourir! Mourir!
(ai!) Rasgue-se-me o ventre na facada!
Me enfiem uma espada na bacia!
Do maior bem da terra ser privado!
Pois não há no cagar mais nenhum gozo
Se se sangra no cu quando sentado!
Tentei de tudo! Um médico, um guru,
Um mago, um curandeiro, até um pajé.
Se cago dói! (ai!) como dói meu cu!
Ardido mais do que um acarajé.
(ai!) Como hei-de enfrentar meu existir
Se do conforto etéreo da cagada
Privado estou quem sabe até que dia!
(ui!) Antes perecer! Mourir! Mourir!
(ai!) Rasgue-se-me o ventre na facada!
Me enfiem uma espada na bacia!
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
Dissolução
Como houvesses querido dar-me
Quanto sei que tu não tiveste
Dou-me eu mesmo a ti, vento agreste
Que ameaças despedaçar-me.
Cá estou, nu e sem alarme
Pra que sejas-me cancro e peste.
Faz'-me nada; e que quanto reste
Não mitigue, tampouco alarme.
E eu enfim, por ti liquefeito
Rio sem margem, sem vau, sem leito,
Não mais sendo, serei no entanto.
Grande Não que deflui do Nada
E do Nunca afluente. Estrada
A canto algum de nenhum canto.
Quanto sei que tu não tiveste
Dou-me eu mesmo a ti, vento agreste
Que ameaças despedaçar-me.
Cá estou, nu e sem alarme
Pra que sejas-me cancro e peste.
Faz'-me nada; e que quanto reste
Não mitigue, tampouco alarme.
E eu enfim, por ti liquefeito
Rio sem margem, sem vau, sem leito,
Não mais sendo, serei no entanto.
Grande Não que deflui do Nada
E do Nunca afluente. Estrada
A canto algum de nenhum canto.
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
Tradução: Victor Hugo - "Demain, dès l'aube, à l'heure où blanchit la campagne..."
Demain, dès l'aube, à l'heure où blanchit la campagne,
Je partirai. Vois-tu, je sais que tu m'attends.
J'irai par la forêt, j'irai par la montagne.
Je ne puis demeurer loin de toi plus longtemps.
Je marcherai les yeux fixés sur mes pensées,
Sans rien voir au dehors, sans entendre aucun bruit,
Seul, inconnu, le dos courbé, les mains croisées,
Triste, et le jour pour moi sera comme la nuit.
Je ne regarderai ni l'or du soir qui tombe,
Ni les voiles au loin descendant vers Harfleur,
Et quand j'arriverai, je mettrai sur ta tombe
Un bouquet de houx vert et de bruyère en fleur.
-x-
Sendo dia, amanhã, quando a plaga faz-se alva
Eu partirei. Bem vês, eu sei que tu me esperas.
Irei pela montanha, eu irei pela selva.
De ti, distante estar, mais tempo eu não pudera.
Eu irei, no pensar meu, os olhos fixados,
Sem nada ver além, sem som qualquer 'scutar,
Ignoto, curvo o dorso, só, braços cruzados,
E o dia, para mim, como a noite será.
Não terei olhos pr'áurea descida noturna
Nem às velas, ao longe, singrando à Harfleur,
E, então, quando chegar, porei sobre a t'a urna
Um buquê de azevinho bem verde, e urze em flor.
Je partirai. Vois-tu, je sais que tu m'attends.
J'irai par la forêt, j'irai par la montagne.
Je ne puis demeurer loin de toi plus longtemps.
Je marcherai les yeux fixés sur mes pensées,
Sans rien voir au dehors, sans entendre aucun bruit,
Seul, inconnu, le dos courbé, les mains croisées,
Triste, et le jour pour moi sera comme la nuit.
Je ne regarderai ni l'or du soir qui tombe,
Ni les voiles au loin descendant vers Harfleur,
Et quand j'arriverai, je mettrai sur ta tombe
Un bouquet de houx vert et de bruyère en fleur.
-x-
Sendo dia, amanhã, quando a plaga faz-se alva
Eu partirei. Bem vês, eu sei que tu me esperas.
Irei pela montanha, eu irei pela selva.
De ti, distante estar, mais tempo eu não pudera.
Eu irei, no pensar meu, os olhos fixados,
Sem nada ver além, sem som qualquer 'scutar,
Ignoto, curvo o dorso, só, braços cruzados,
E o dia, para mim, como a noite será.
Não terei olhos pr'áurea descida noturna
Nem às velas, ao longe, singrando à Harfleur,
E, então, quando chegar, porei sobre a t'a urna
Um buquê de azevinho bem verde, e urze em flor.
sábado, 30 de julho de 2011
XXVI
Não temo a morte, o escuro, o fim, nem nada.
Apenas isto temo sob o céu:
No W.C., após uma cagada,
Me aperceber de que não há papel.
Pro Escuro, há Luz; à Noite, a Alvorada
Sucede sempre, dissipando o breu.
Mas quem cagou sem ter dado uma olhada
Perdido está, pois sem papel, fodeu.
Assim, cagar, que é coisa tão bonita
Terá levado um homem à desdita
Pior que o fim, a morte, a noite, o escuro!
Ó homens, atentai! Tende cautela!
Por mais que urgente seja a estrumela,
Olhai antes de ao vaso abrir o furo.
Apenas isto temo sob o céu:
No W.C., após uma cagada,
Me aperceber de que não há papel.
Pro Escuro, há Luz; à Noite, a Alvorada
Sucede sempre, dissipando o breu.
Mas quem cagou sem ter dado uma olhada
Perdido está, pois sem papel, fodeu.
Assim, cagar, que é coisa tão bonita
Terá levado um homem à desdita
Pior que o fim, a morte, a noite, o escuro!
Ó homens, atentai! Tende cautela!
Por mais que urgente seja a estrumela,
Olhai antes de ao vaso abrir o furo.
sexta-feira, 29 de julho de 2011
Poemas velhos
Comentei aqui outro dia que encontrei uns poemas velhos na gaveta. A maioria deles integrou uma antologia que eu entreguei como trabalho de português no colégio. Obviamente há muita coisa vergonhosamente ruim que eu não vou transcrever aqui, mas me surpreendi com o fato de que um ou outro ainda me soa bem passável. Inclusive, minhas concepções estéticas já se estavam formando faz tempo, como ilustra "Autocrítica", poema que abria a antologia:
Minha poesia fede.
Ela exala um pútrido eflúvio daquela abjeta leviandade pueril cheia de [exageros
E de uma prolixidade pedante.
Tudo o que eu escrevo é fútil e é vazio.
Não me importa o conteúdo desde que caiba na métrica.
(...)
Minha poesia é uma grande merda.
Isso mesmo.
- Eme, ê, erre, dê, a. -
É o clássico por excelência da literatura fecal.
O tom da maioria dos poemas, no entanto, difere radicalmente deste primeiro. Predomina um sentimentalismo que misturava algo dos românticos brasileiros com uma certa saudade indefinida à Cecília Meireles, de quem eu provavelmente peguei a sintaxe pseudo-lusitana e o gosto por metros 'musicais':
Tu me vieste como canção
Ébrios fizeste meus ouvidos.
Tu te distanciaste-me então
Qual houvesses nunca existido.
Tu como uma nuvem me vieste,
Celeste aljôfar delicado!
Mas te pôs longe o vento agreste
Sem teres ao solo tornado.
("Soneto II")
Ó deixa o vento secar este pranto,
Pranto que da minh'alma unta os umbrais.
Deixa-me ouvir ouvir o seu tácito canto;
Deixa-me ouvir o seu planger loquaz.
("Soneto inglês")
A influência de Cecília é palpável em "Poeminha", que tem um certo lirismo melopeico mais sereno, diferente do desespero afetado dos outros poemas:
Vem tu, que és nívea, cá
A lua o é também.
O estrábico luar
É p'ra quem nada tem.
O sol a todos dá
O que dá a ninguém
Como as vagas do mar
Beijar a praia vêm.
e em "Passarinho", que era um poema meio boiola com um refrão que se repetia com pequenas variações de tempos em tempos:
Por que foges
Se vieste
Aplacar-me a solidão?
O que temes,
Ave agreste?
Pousa tu na minha mão!
(...)
Por que foges
Se vieste
Aplacar-me a solidão?
Teu intento
Esqueceste?
Por que foges, pois, então?
(...)
Mas eu sei, ave garrida,
Que tu tinhas de voar.
É teu papel nesta vida
Cortares, célere, o ar.
Voa então, ó passarinho,
Que é p'ra voar que existes;
Qual eu sou p'ra ser sozinho
E viver saudoso e triste.
Mas mesmo dentre essa série de poemas afetados de adolescente trevoso punheteiro há alguns que surpreendem. Como este "Soneto I":
Meu amor é abertura
Que houvesse louçã nogueira
Co'as suas raízes trigueiras
Infligido à terra dura.
Ele é qual chaga na pele
Que por mais que o tempo cubra
Deixa uma delgada e rubra
Cicatriz que não se dele.
Ele é qual um rio perene
Que em confins ínvios do mundo
Escondido a tudo jaz.
De ninguém a sede lene,
Mas é tão caudal e fundo
Que se secará jamais.
Há aí uma mistureba danada. Considerando o que eu andava lendo na época, certamente tem algo do Camões lírico, alguma coisa de Cecília (o tom equilibradamente melancólico e a redondilha) e uma ou outra coisa dos românticos ("louçã" é coisa do Casimiro, assim como esses símiles com plantinhas). De qualquer forma, este é provavelmente o melhor e menos mela-cueca de todos os sonetos que eu fazia nessa época.
Há um outro soneto (intitulado "Soneto" apenas) mais singelo de que eu não me lembrava e que me fez rir:
Esses lábios de relento,
Que cobrem teu sorrir lhano,
São qual se estendesse um pano
Que cobrisse o firmamento.
Mas eu bem sei o remédio
P'ra tal desconcerto ingente
(Que não pode a minha gente
Não ver o teu sorrir nédio!)
Vou morder os lábios teus
Até que não tapem mais
O teu riso gaio e ledo.
Pois não devem rubros véus
Fazer aos outros, jamais,
Do teu sorriso um segredo.
Ou este, decassílabo, que não integrou a antologia do trabalho, mas foi escrito a mão num verso do livrinho:
Se um sorriso não veste o meu semblante,
Deixai-o! É que entre suas vestes várias
Tem preferido a um sorriso galante
Dispor de mais discreta indumentária.
O seu estilo é sóbrio, moderado;
Mas não lhe falta bom gosto ou apuro:
Usa vestes que eu mesmo, com cuidado,
Teço co'o fio da tristeza e costuro.
Decerto preferis os grifes caros,
Esses sorrisos de linho, de seda,
De belos cortes, de vivo escarlate.
Mas não tomeis-me o rosto por avaro:
Não lhe cai bem veste por demais leda;
Deixai-o em paz! E a mim, seu alfaiate.
Também escrito no verso de uma página ficou este aqui:
Caminhando a ledos passos
Vens, por um campo de nardos;
Vêm tuas pernas, vêm teus braços,
Vêm teus belos olhos pardos.
Vem tua boca vespertina,
Vem também teu rosto amigo;
Vem teu riso de menina...
Só eu que não vou contigo!
e
Cuidei que do amor e de seus nocivos
Enganos, eu me fizera isento.
Mas, quanto mais dos teus olhos eu tento
Fugir, mais deles me torno cativo.
("Soneto")
e este aqui
Num dia claro e frio de maio
Fiz versos marrons como a terra que me circunscrevia.
E eram meus olhos astros
E meus pés eram brisa
E eu era fino e inócuo orvalho.
Transcrevi esse último só por causa do lance dos "versos marrons". Um prenúncio dos sonetos de merda?
Como o "Autocrítica", há alguns outros poemas que misturam verso livre irritadiço com vocabulário difícil, que era o meu penis enlarger quando adolescente. Por exemplo, "Crise de criatividade", um poema meio besta sobre falta de inspiração:
Não me vêm os versos.
O lápis, largado num canto,
Espera-me, qual concubina lasciva em leito que
[previamente perfumasse.
Chama-me e chama-me debalde.
Mira-me; não entende por que não lhe acode mais
O amante, quando o chama para junto de si.
Mas como eu haveria de explicar-lhe
Que não me vêm os versos?
(...)
Quoth the poet
Não me vêm os versos.
Tema que motivou um outro poema bem mais divertido do que esse:
Muniu-se o poeta da pena
A fim de escrever um poema
Marcado de gênio e de estro,
De estilo grandioso e eloquente.
Mas fugiu-lhe a musa - que pena! -
Contentou-se pois c'um poema
Vazio, idiota e canhestro
Que era uma besteira ingente!
("Poema nulo")
Há outros bem divertidos. "Mediocridade", por exemplo, que, guardadas as proporções, lembra um pouco Pessoa:
Eu sou um homem medíocre
De inteligência medíocre.
Também são estes meus versos
Completamente medíocres
Não sou alto, não sou baixo.
Não sou gordo, não sou magro.
Não sou feio, nem bonito:
Sou, tão somente, medíocre.
A mediocridade é tudo
E é ao mesmo tempo o nada
Como um bando de andorinhas
A voar pela alvorada.
(Esta rima é uma rima
Completamente medíocre.
E sou eu tão, tão medíocre
Que é também mediocridade
A única coisa em que
Excedo a mediocridade.
"A batalha", poema meio maluco, já demonstrava minhas tendências de versificação punhetística-parnasianesca-bestialógica:
Veio um bando de pintassilgos rubicundos
Enfrentar os melros tecnocratas do leste.
Vieram cá passarinhos de todo o mundo
Assistir ao épico litígio celeste!
Assumiu tal contenda a proporção exata
Das célebres batalhas de Homero e Virgílio.
A vitória pendia aos melros tecnocratas
Quando se viu no céu um inaudito brilho.
Rasgou os céus um enorme ser aquilino:
Tinha penas ígneas fulgentes como o sol.
Esquadrinhar não poderia o humano tino
Aquele falconídeo de cor de arrebol.
Terrível gancho então soltou a flama alada;
Tão forte que por toda plaga foi ouvido.
Eis que disse, quando já não se ouvia nada:
"Pássaros de merda, vocês estão fodidos!"
Enfim, chega. Fico por aqui pra vocês não perderem o respeito.
Minha poesia fede.
Ela exala um pútrido eflúvio daquela abjeta leviandade pueril cheia de [exageros
E de uma prolixidade pedante.
Tudo o que eu escrevo é fútil e é vazio.
Não me importa o conteúdo desde que caiba na métrica.
(...)
Minha poesia é uma grande merda.
Isso mesmo.
- Eme, ê, erre, dê, a. -
É o clássico por excelência da literatura fecal.
O tom da maioria dos poemas, no entanto, difere radicalmente deste primeiro. Predomina um sentimentalismo que misturava algo dos românticos brasileiros com uma certa saudade indefinida à Cecília Meireles, de quem eu provavelmente peguei a sintaxe pseudo-lusitana e o gosto por metros 'musicais':
Tu me vieste como canção
Ébrios fizeste meus ouvidos.
Tu te distanciaste-me então
Qual houvesses nunca existido.
Tu como uma nuvem me vieste,
Celeste aljôfar delicado!
Mas te pôs longe o vento agreste
Sem teres ao solo tornado.
("Soneto II")
Ó deixa o vento secar este pranto,
Pranto que da minh'alma unta os umbrais.
Deixa-me ouvir ouvir o seu tácito canto;
Deixa-me ouvir o seu planger loquaz.
("Soneto inglês")
A influência de Cecília é palpável em "Poeminha", que tem um certo lirismo melopeico mais sereno, diferente do desespero afetado dos outros poemas:
Vem tu, que és nívea, cá
A lua o é também.
O estrábico luar
É p'ra quem nada tem.
O sol a todos dá
O que dá a ninguém
Como as vagas do mar
Beijar a praia vêm.
e em "Passarinho", que era um poema meio boiola com um refrão que se repetia com pequenas variações de tempos em tempos:
Por que foges
Se vieste
Aplacar-me a solidão?
O que temes,
Ave agreste?
Pousa tu na minha mão!
(...)
Por que foges
Se vieste
Aplacar-me a solidão?
Teu intento
Esqueceste?
Por que foges, pois, então?
(...)
Mas eu sei, ave garrida,
Que tu tinhas de voar.
É teu papel nesta vida
Cortares, célere, o ar.
Voa então, ó passarinho,
Que é p'ra voar que existes;
Qual eu sou p'ra ser sozinho
E viver saudoso e triste.
Mas mesmo dentre essa série de poemas afetados de adolescente trevoso punheteiro há alguns que surpreendem. Como este "Soneto I":
Meu amor é abertura
Que houvesse louçã nogueira
Co'as suas raízes trigueiras
Infligido à terra dura.
Ele é qual chaga na pele
Que por mais que o tempo cubra
Deixa uma delgada e rubra
Cicatriz que não se dele.
Ele é qual um rio perene
Que em confins ínvios do mundo
Escondido a tudo jaz.
De ninguém a sede lene,
Mas é tão caudal e fundo
Que se secará jamais.
Há aí uma mistureba danada. Considerando o que eu andava lendo na época, certamente tem algo do Camões lírico, alguma coisa de Cecília (o tom equilibradamente melancólico e a redondilha) e uma ou outra coisa dos românticos ("louçã" é coisa do Casimiro, assim como esses símiles com plantinhas). De qualquer forma, este é provavelmente o melhor e menos mela-cueca de todos os sonetos que eu fazia nessa época.
Há um outro soneto (intitulado "Soneto" apenas) mais singelo de que eu não me lembrava e que me fez rir:
Esses lábios de relento,
Que cobrem teu sorrir lhano,
São qual se estendesse um pano
Que cobrisse o firmamento.
Mas eu bem sei o remédio
P'ra tal desconcerto ingente
(Que não pode a minha gente
Não ver o teu sorrir nédio!)
Vou morder os lábios teus
Até que não tapem mais
O teu riso gaio e ledo.
Pois não devem rubros véus
Fazer aos outros, jamais,
Do teu sorriso um segredo.
Ou este, decassílabo, que não integrou a antologia do trabalho, mas foi escrito a mão num verso do livrinho:
Se um sorriso não veste o meu semblante,
Deixai-o! É que entre suas vestes várias
Tem preferido a um sorriso galante
Dispor de mais discreta indumentária.
O seu estilo é sóbrio, moderado;
Mas não lhe falta bom gosto ou apuro:
Usa vestes que eu mesmo, com cuidado,
Teço co'o fio da tristeza e costuro.
Decerto preferis os grifes caros,
Esses sorrisos de linho, de seda,
De belos cortes, de vivo escarlate.
Mas não tomeis-me o rosto por avaro:
Não lhe cai bem veste por demais leda;
Deixai-o em paz! E a mim, seu alfaiate.
Também escrito no verso de uma página ficou este aqui:
Caminhando a ledos passos
Vens, por um campo de nardos;
Vêm tuas pernas, vêm teus braços,
Vêm teus belos olhos pardos.
Vem tua boca vespertina,
Vem também teu rosto amigo;
Vem teu riso de menina...
Só eu que não vou contigo!
e
Cuidei que do amor e de seus nocivos
Enganos, eu me fizera isento.
Mas, quanto mais dos teus olhos eu tento
Fugir, mais deles me torno cativo.
("Soneto")
e este aqui
Num dia claro e frio de maio
Fiz versos marrons como a terra que me circunscrevia.
E eram meus olhos astros
E meus pés eram brisa
E eu era fino e inócuo orvalho.
Transcrevi esse último só por causa do lance dos "versos marrons". Um prenúncio dos sonetos de merda?
Como o "Autocrítica", há alguns outros poemas que misturam verso livre irritadiço com vocabulário difícil, que era o meu penis enlarger quando adolescente. Por exemplo, "Crise de criatividade", um poema meio besta sobre falta de inspiração:
Não me vêm os versos.
O lápis, largado num canto,
Espera-me, qual concubina lasciva em leito que
[previamente perfumasse.
Chama-me e chama-me debalde.
Mira-me; não entende por que não lhe acode mais
O amante, quando o chama para junto de si.
Mas como eu haveria de explicar-lhe
Que não me vêm os versos?
(...)
Quoth the poet
Não me vêm os versos.
Tema que motivou um outro poema bem mais divertido do que esse:
Muniu-se o poeta da pena
A fim de escrever um poema
Marcado de gênio e de estro,
De estilo grandioso e eloquente.
Mas fugiu-lhe a musa - que pena! -
Contentou-se pois c'um poema
Vazio, idiota e canhestro
Que era uma besteira ingente!
("Poema nulo")
Há outros bem divertidos. "Mediocridade", por exemplo, que, guardadas as proporções, lembra um pouco Pessoa:
Eu sou um homem medíocre
De inteligência medíocre.
Também são estes meus versos
Completamente medíocres
Não sou alto, não sou baixo.
Não sou gordo, não sou magro.
Não sou feio, nem bonito:
Sou, tão somente, medíocre.
A mediocridade é tudo
E é ao mesmo tempo o nada
Como um bando de andorinhas
A voar pela alvorada.
(Esta rima é uma rima
Completamente medíocre.
E sou eu tão, tão medíocre
Que é também mediocridade
A única coisa em que
Excedo a mediocridade.
"A batalha", poema meio maluco, já demonstrava minhas tendências de versificação punhetística-parnasianesca-bestialógica:
Veio um bando de pintassilgos rubicundos
Enfrentar os melros tecnocratas do leste.
Vieram cá passarinhos de todo o mundo
Assistir ao épico litígio celeste!
Assumiu tal contenda a proporção exata
Das célebres batalhas de Homero e Virgílio.
A vitória pendia aos melros tecnocratas
Quando se viu no céu um inaudito brilho.
Rasgou os céus um enorme ser aquilino:
Tinha penas ígneas fulgentes como o sol.
Esquadrinhar não poderia o humano tino
Aquele falconídeo de cor de arrebol.
Terrível gancho então soltou a flama alada;
Tão forte que por toda plaga foi ouvido.
Eis que disse, quando já não se ouvia nada:
"Pássaros de merda, vocês estão fodidos!"
Enfim, chega. Fico por aqui pra vocês não perderem o respeito.
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