segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

XIV

Tu me dizes que eu sou feio,
troglodita e beberrão;
que meu copo vive cheio,
que eu sou duro como o chão.

Sem embargo, minha amiga,
eu bem sei o que tu sentes:
não importa o que tu digas,
tu me queres loucamente.

Quando cagas à noitinha
refletindo sobre o mundo,
eu bem sei por quem suspiras.

Sei que tu, bem lá no fundo,
Sonhas ser um dia minha
E lamber a minha lira.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

XIII

Aproveitando o clima carnavalesco, fiz este soneto a pedido do André.


Dia desses, Carnaval,
cabreiríssimo da vida,
ao desfile, na avenida,
fui e lá mostrei meu pau.

Mas com'isso 'num bastô'
para o meu desenfastio,
Agachei no meio-fio,
agachei e fiz cocô.

E pr'à troça pôr um fim,
E acabar com meu spleen,
Fiz foi um'obra de arte.

Sim, leitor, pra terminá-la,
Empossei-me do estandarte
E empalei o Mestre-Sala.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

XII

S'um dia cair-me o cu,
Mata-me e lança-me ao mar.
Acaso hás de querer tu
Qu'eu exista sem cagar?

Amigo, se tal desdita
Um dia sobrevier-me,
Sem dó me esfaqueia a derme!
Faz'-me beber chá de fita!

Mas vê! Antes de jogares
Meu corpo inerte nos mares,
Minhas vísceras retira;

Faze buchada com elas,
Põe croutons, sal, beringelas,
E serve ao molho caipira.

domingo, 20 de dezembro de 2009

XI

πάντα χωρει καί ουδέν μένει*
Heráclito

Que importa quanto faça cá o homem?
Como diria o de Cinoscefale**,
Sonho de sombra é! Que quer que fale,
Estude ou faça, morre; e os vermes comem.

A bela amada por quem tu te agitas
Um dia não será que uma carcaça.***
No mundo tudo morre, tudo passa;
É tudo inútil e vão! Omnia vanitas!


Até mesmo essa pizza de palmito
De cheiro bom, de aspecto tão bonito,
Será cocô fedido, amorfo e feio.

Agora já fizeste essa cagada.
Mas nada importa! Larga os teus anseios
E vê se pede logo outra rodada.











* - "Tudo se movimenta, nada permanece."
** - Píndaro. Sim, olhei no Wikipedia pra descobrir que ele veio desse tal lugar chamado Cinoscefale.
*** - Sim, roubei isso do Baudelaire. Aproveitei e fiz um galicismo sintático idiota pra combinar.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

X

Ó vida. Ó azar. Ninguém me quer.
Ninguém me ama. Vou comer cocô.
E com Nescau. Talvez c'uma colher
Vá parecer até petit gateau.

Ó céus. Que dor estou sentindo no
Meu peito por não ter ninguém ao lado.
Eu sinto-me qual se Átila, o Huno,
Tivesse-me co'a lança trespassado.

Meu Deus, como essa coisa ficou gay!
Mas que merda de quartetos eu fiz?
Não os compus; eu antes os caguei.

Melhor jogar 'sa porra na privada
Com todos os meus versos pueris
E nunca mais tentar escrever nada.














segunda-feira, 3 de agosto de 2009

IX - Nel Mezzo del cocô

Olavo Bilac, poeta parnasiano, autor do Hino da Bandeira e um dos responsáveis pelo alistamento militar obrigatório (filho da puta!), tomou emprestadas, para nomear um de seus mais famosos sonetos, as primeiras palavras da Divina Comédia, de Dante Alighieri:

Nel mezzo del camin de nostra vita
mi ritrovai in una selva oscura
ché la diritta via era smarrita.

A meio caminhar de nossa vida
fui me encontrar em uma selva escura:
estava a reta minha via perdida

(Tradução de Italo Eugênio Mauro.)

Nel mezzo del camin de sua vida (meia-idade), Dante se encontra em uma selva oscura (um desvio da virtude/moral cristã), estando a sua diritta via smarrita. (Razão pela qual ele empreende a viagem metafísica marota pelo Inferno/Purgatório, espécie de alegoria da ascenção espiritual, até encontrar, no Paraíso, sua musa Beatrice, uma mulher que ele viu duas vezes na vida quando era criança. Tsc, tsc.) Vamos para o Bilac:


Nel mezzo del camim...

Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E a alma de sonhos povoada eu tinha...

E paramos de súbito na estrada
Da vida: longos anos, presa à minha
A tua mão, a vista deslumbrada
Tive da luz que teu olhar continha.

Hoje segues de novo... Na partida
Nem o pranto os teus olhos umedece,
Nem te comove a dor da despedida.

E eu, solitário, volto a face, e tremo,
Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo.

É um soneto do caralho, sem dúvida. Os parnasianos podem ser frequentemente um pé no saco com aquele tecnicismo estéril, mas o Bilac tem alguns poemas muito bons, entre os quais este clássico. No entanto, não consigo refrear meus instintos escatológicos de destruir as grandes realizações estéticas da humanidade. Eu tinha que destruir este poema também. E ei-lo, na sua versão fecalizada:


Nel mezzo del cocô

Caguei. Cagaste. Comeras rabada
E também rabada comido eu tinha.
(Além do feijão, pão de queijo, empada,
Sorvete, filé, pudim, dobradinha.)

Ah, cagas tão cheiroso, ó minha amada!
Florais eflúvios vêm da tua bundinha
Com cheiro do Parnaso! De alvorada!
De bala de hortelã! Cravo e salsinha!

Mas (oh) eis que a privada está entupida!
Aperto a descarga, a merda não desce;
Ri-se de nós, escarninha, a bandida!

Monoftalmo gigante, Polifemo
Fecal! Por favor, atende-me as preces!
Sai pelo cano, tolosso do Demo!

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Tradução: "À une passante", de Charles Baudelaire.

Fiz uma tradução do famoso soneto do Baudelaire, A une passante. (Depois eu percebi que umas das minhas mais geniais soluções pra traduzir as rimas tinham sido insconscientemente roubadas da outra tradução que eu conhecia , mas foda-se.) Enfim, seguem o original em francês, a minha tradução marota e a tradução do outro cara (não sei de quem é):


Original:

La rue assourdissante autour de moi hurlait.
Longue, mince, en grand deuil, douleur majestueuse,
Une femme passa, d'une main fastueuse
Soulevant, balançant le feston et l'ourlet ;

Agile et noble, avec sa jambe de statue.
Moi, je buvais, crispé comme un extravagant,
Dans son oeil, ciel livide où germe l’ouragan
La douceur qui fascine et le plaisir qui tue.

Un éclair… puis la nuit ! — Fugitive beauté
Dont le regard m'a fait soudainement renaître,
Ne te verrai-je plus que dans l'éternité ?

Ailleurs, bien loin d'ici ! trop tard ! jamais peut-être !
Car j'ignore où tu fuis, tu ne sais où je vais,
Ô toi que j’eusse aimée, ô toi qui le savais !


Minha tradução:

A ensurdecente rua em torno meu uivava.
Longa, esguia, em grande luto, dor majestosa,
Uma dama passou, de uma mão faustuosa
Que a barra e a bordadura erguia e balançava;

Nobre e ligeira, com sua perna estatual.
Eu lhe bebia, qual demente embasbacado,
Do olho, plúmbeo céu, genitor do tornado,
A doçura fascinante, o prazer letal.

Um clarão... e a noite! - fugitiva beldade
Cujo olhar renascer, de repente, me fez,
Não te verei mais eu senão na eternidade?

Alhures, bem longe e tarde! Jamais, talvez.
Pois não sei onde vais; tu ignoras mi'as vias,
Ó tu que eu teria amado! Ó tu que o sabias!


Tradução do outro cara:

A rua em torno era um frenético alarido.
Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,
Uma mulher passou, com sua mão suntosa
Erguendo e sacudindo a barra do vestido.

Pernas de estátua, era-lhe a imagem nobre e fin a.
Qual bizarro basbaque, afoito eu lhe bebia
No olhar, céu lívido onde aflora a ventania
A doçura que envolve e o prazer que assassina.

Que luz... e a noite após! - Efêmera beldade
Cujos olhos me fazem nascer outra vez,
Não mais hei de te ver senão na eternidade?

Longe daqui! Tarde demais! nunca talvez!
Pois de ti já me fui, de mim tu já fugiste,
Tu que eu teria amado, ó tu que bem o viste!
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