Fiz uma tradução do famoso soneto do Baudelaire, A une passante. (Depois eu percebi que umas das minhas mais geniais soluções pra traduzir as rimas tinham sido insconscientemente roubadas da outra tradução que eu conhecia , mas foda-se.) Enfim, seguem o original em francês, a minha tradução marota e a tradução do outro cara (não sei de quem é):
Original:
La rue assourdissante autour de moi hurlait.
Longue, mince, en grand deuil, douleur majestueuse,
Une femme passa, d'une main fastueuse
Soulevant, balançant le feston et l'ourlet ;
Agile et noble, avec sa jambe de statue.
Moi, je buvais, crispé comme un extravagant,
Dans son oeil, ciel livide où germe l’ouragan
La douceur qui fascine et le plaisir qui tue.
Un éclair… puis la nuit ! — Fugitive beauté
Dont le regard m'a fait soudainement renaître,
Ne te verrai-je plus que dans l'éternité ?
Ailleurs, bien loin d'ici ! trop tard ! jamais peut-être !
Car j'ignore où tu fuis, tu ne sais où je vais,
Ô toi que j’eusse aimée, ô toi qui le savais !
Minha tradução:
A ensurdecente rua em torno meu uivava.
Longa, esguia, em grande luto, dor majestosa,
Uma dama passou, de uma mão faustuosa
Que a barra e a bordadura erguia e balançava;
Nobre e ligeira, com sua perna estatual.
Eu lhe bebia, qual demente embasbacado,
Do olho, plúmbeo céu, genitor do tornado,
A doçura fascinante, o prazer letal.
Um clarão... e a noite! - fugitiva beldade
Cujo olhar renascer, de repente, me fez,
Não te verei mais eu senão na eternidade?
Alhures, bem longe e tarde! Jamais, talvez.
Pois não sei onde vais; tu ignoras mi'as vias,
Ó tu que eu teria amado! Ó tu que o sabias!
Tradução do outro cara:
A rua em torno era um frenético alarido.
Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,
Uma mulher passou, com sua mão suntosa
Erguendo e sacudindo a barra do vestido.
Pernas de estátua, era-lhe a imagem nobre e fin a.
Qual bizarro basbaque, afoito eu lhe bebia
No olhar, céu lívido onde aflora a ventania
A doçura que envolve e o prazer que assassina.
Que luz... e a noite após! - Efêmera beldade
Cujos olhos me fazem nascer outra vez,
Não mais hei de te ver senão na eternidade?
Longe daqui! Tarde demais! nunca talvez!
Pois de ti já me fui, de mim tu já fugiste,
Tu que eu teria amado, ó tu que bem o viste!
sexta-feira, 29 de maio de 2009
segunda-feira, 11 de maio de 2009
VIII
Eu ia andando todo gaio e ledo,
Compondo algum poema aqui na mente;
Cortei caminho sob um arvoredo
Que me guardava um belo de um presente:
Tinha um cocô no meio do caminho,
No meio do caminho um coco tinha.
(E não, leitor, não era uma bostinha,
Era maior que o de um leão marinho!)
Fiquei c'o tênis todo esmerdolado.
"Caralho, musa, vai tomar no cu!",
Bradei, "te canto em todo canto e tu
Me aprontas uma destas? Mas que merda!"
E os versos que fazia, pus de lado,
Que é isso que quem canta a Bosta herda.
Dedico este ao André, que me deu a idéia da alusão ao Drummond e a rima magistral de merda/herda, way better que a merda/Thiago Lacerda em que eu tinha pensado.
Compondo algum poema aqui na mente;
Cortei caminho sob um arvoredo
Que me guardava um belo de um presente:
Tinha um cocô no meio do caminho,
No meio do caminho um coco tinha.
(E não, leitor, não era uma bostinha,
Era maior que o de um leão marinho!)
Fiquei c'o tênis todo esmerdolado.
"Caralho, musa, vai tomar no cu!",
Bradei, "te canto em todo canto e tu
Me aprontas uma destas? Mas que merda!"
E os versos que fazia, pus de lado,
Que é isso que quem canta a Bosta herda.
Dedico este ao André, que me deu a idéia da alusão ao Drummond e a rima magistral de merda/herda, way better que a merda/Thiago Lacerda em que eu tinha pensado.
quarta-feira, 25 de março de 2009
VII
Estava Newton a cagar um dia
- A história da maçã não é verdade! -
E, vendo que o cocô pra baixo ia,
Depreendeu as leis da gravidade.
Beethoven, gênio inquieto, quase insano,
Estava ao seu cocô dando um deslize
Quando saiu correndo pro piano
Sem nem limpar-se e compôs "Für Elise".
Até Rodin, o famoso escultor,
Mimetizou a hora de cagar,
Que tanto inspira, no seu "Pensador".
Pois tudo quanto é saber e pensar;
Ciência e arte; e tudo quanto é fino
Tem muito a agradecer ao intestino.
- A história da maçã não é verdade! -
E, vendo que o cocô pra baixo ia,
Depreendeu as leis da gravidade.
Beethoven, gênio inquieto, quase insano,
Estava ao seu cocô dando um deslize
Quando saiu correndo pro piano
Sem nem limpar-se e compôs "Für Elise".
Até Rodin, o famoso escultor,
Mimetizou a hora de cagar,
Que tanto inspira, no seu "Pensador".
Pois tudo quanto é saber e pensar;
Ciência e arte; e tudo quanto é fino
Tem muito a agradecer ao intestino.
domingo, 22 de março de 2009
VI
Era uma manhã de abril.
Eu fiz um cocô tão lindo!
(Parecia do buril
de Michelangelo vindo.)
Tão simétrico e assente!
Foi minha obra-prima mor.
Parecia um presidente
Lá do monte Rãchimor.
Tirei foto, pus em fita;
Tatuei no meu pescoço,
Desenhei até no teto.
Quando em casa vem visita,
Sempre mostro esse tolosso
Que herdarão de mim meus netos.
Eu fiz um cocô tão lindo!
(Parecia do buril
de Michelangelo vindo.)
Tão simétrico e assente!
Foi minha obra-prima mor.
Parecia um presidente
Lá do monte Rãchimor.
Tirei foto, pus em fita;
Tatuei no meu pescoço,
Desenhei até no teto.
Quando em casa vem visita,
Sempre mostro esse tolosso
Que herdarão de mim meus netos.
sexta-feira, 20 de março de 2009
V
Não tenho amigos, não tenho dinheiro,
Eu sou um pária, um ninguém, um bufão.
Tudo o que tenho está neste banheiro
Com azulejos de cor de salmão.
Cá passo dezesseis horas por dia
- É minha Arcádia dois-metros-por-três -
A compor odes, hinos, elegias,
E esses sonetos que ora, leitor, lês.
Lá minha vida já não tem sentido:
Sem excremento, o prazer não existe
- É tudo caos, tudo frio, tudo triste.
Cá, no banheiro, me sinto acolhido.
Viva a privada, melhor que qualquer
Homem, cachorro, boneca ou mulher.
Eu sou um pária, um ninguém, um bufão.
Tudo o que tenho está neste banheiro
Com azulejos de cor de salmão.
Cá passo dezesseis horas por dia
- É minha Arcádia dois-metros-por-três -
A compor odes, hinos, elegias,
E esses sonetos que ora, leitor, lês.
Lá minha vida já não tem sentido:
Sem excremento, o prazer não existe
- É tudo caos, tudo frio, tudo triste.
Cá, no banheiro, me sinto acolhido.
Viva a privada, melhor que qualquer
Homem, cachorro, boneca ou mulher.
terça-feira, 17 de março de 2009
In memoriam
Hoje vim aqui ligar a Internerds para entorpecer um pouco meu cérebro e descubro que o maior ícone tupiniquim da pederastia televisiva foi pro saco! Já era, vestiu o paletó de madeira, foi ver a grama crescer do outro lado; faleceu, morreu... enfim, como preferirem. Clodovil est mort, mesdames et messieurs. E não virou purpurina.
Senti-me na obrigação, como grande poeta e homem sensível das letras que sou, quase um Victor Hugo brasileiro, de escrever um sonetinho In memoriam, um requiem poético para esse grande ícone que nos deixará saudade. Segue o poema:
O seu Clodovil morreu!
Morreu o seu Clodovil!
(Antes ele do que eu.
Foi pra puta que pariu.)
Morreu Clodovil Hernandes:
Com o seu corpo sem vida
Vão fazer carne moída
E distribuir nos Andes.
Vai feder no seu esquife,
Virar comida de verme,
Nunca mais abrir o olho.
(Também vou querer um bife
Feito do seu corpo inerme
E cozinhar com repolho.)
-x-
Vai-te em paz, Clô, velho saravá!
Senti-me na obrigação, como grande poeta e homem sensível das letras que sou, quase um Victor Hugo brasileiro, de escrever um sonetinho In memoriam, um requiem poético para esse grande ícone que nos deixará saudade. Segue o poema:
O seu Clodovil morreu!
Morreu o seu Clodovil!
(Antes ele do que eu.
Foi pra puta que pariu.)
Morreu Clodovil Hernandes:
Com o seu corpo sem vida
Vão fazer carne moída
E distribuir nos Andes.
Vai feder no seu esquife,
Virar comida de verme,
Nunca mais abrir o olho.
(Também vou querer um bife
Feito do seu corpo inerme
E cozinhar com repolho.)
-x-
Vai-te em paz, Clô, velho saravá!
quinta-feira, 12 de março de 2009
IV
Estava eu versejando na privada
E compunha um soneto muito belo.
- Que rimas, que linguagem apurada! -
Até Camões ficava no chinelo.
Pus no papel dois ótimos quartetos;
Depois veio um terceto do caralho.
"Mas três versinhos cá no papel meto",
Pensei, "e terei um soneto infalho."
Mas, Oh, vida! Oh, azar! Não me foi dado
Por Musa terminar a poesia!
(Mesmo sentado lá por todo o dia...)
Fiquei sem meu soneto e todo assado.
Não consegui sequer limpar a bunda.
Em meu peito terrível dor abunda.
E compunha um soneto muito belo.
- Que rimas, que linguagem apurada! -
Até Camões ficava no chinelo.
Pus no papel dois ótimos quartetos;
Depois veio um terceto do caralho.
"Mas três versinhos cá no papel meto",
Pensei, "e terei um soneto infalho."
Mas, Oh, vida! Oh, azar! Não me foi dado
Por Musa terminar a poesia!
(Mesmo sentado lá por todo o dia...)
Fiquei sem meu soneto e todo assado.
Não consegui sequer limpar a bunda.
Em meu peito terrível dor abunda.
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