sábado, 30 de julho de 2011

XXVI

Não temo a morte, o escuro, o fim, nem nada.
Apenas isto temo sob o céu:
No W.C., após uma cagada,
Me aperceber de que não há papel.

Pro Escuro, há Luz; à Noite, a Alvorada
Sucede sempre, dissipando o breu.
Mas quem cagou sem ter dado uma olhada
Perdido está, pois sem papel, fodeu.

Assim, cagar, que é coisa tão bonita
Terá levado um homem à desdita
Pior que o fim, a morte, a noite, o escuro!

Ó homens, atentai! Tende cautela!
Por mais que urgente seja a estrumela,
Olhai antes de ao vaso abrir o furo.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Poemas velhos

Comentei aqui outro dia que encontrei uns poemas velhos na gaveta. A maioria deles integrou uma antologia que eu entreguei como trabalho de português no colégio. Obviamente há muita coisa vergonhosamente ruim que eu não vou transcrever aqui, mas me surpreendi com o fato de que um ou outro ainda me soa bem passável. Inclusive, minhas concepções estéticas já se estavam formando faz tempo, como ilustra "Autocrítica", poema que abria a antologia:

Minha poesia fede.
Ela exala um pútrido eflúvio daquela abjeta leviandade pueril cheia de [exageros
E de uma prolixidade pedante.

Tudo o que eu escrevo é fútil e é vazio.
Não me importa o conteúdo desde que caiba na métrica.
(...)
Minha poesia é uma grande merda.
Isso mesmo.
- Eme, ê, erre, dê, a. -
É o clássico por excelência da literatura fecal.


O tom da maioria dos poemas, no entanto, difere radicalmente deste primeiro. Predomina um sentimentalismo que misturava algo dos românticos brasileiros com uma certa saudade indefinida à Cecília Meireles, de quem eu provavelmente peguei a sintaxe pseudo-lusitana e o gosto por metros 'musicais':

Tu me vieste como canção
Ébrios fizeste meus ouvidos.
Tu te distanciaste-me então
Qual houvesses nunca existido.

Tu como uma nuvem me vieste,
Celeste aljôfar delicado!
Mas te pôs longe o vento agreste
Sem teres ao solo tornado.


("Soneto II")

Ó deixa o vento secar este pranto,
Pranto que da minh'alma unta os umbrais.
Deixa-me ouvir ouvir o seu tácito canto;
Deixa-me ouvir o seu planger loquaz.


("Soneto inglês")

A influência de Cecília é palpável em "Poeminha", que tem um certo lirismo melopeico mais sereno, diferente do desespero afetado dos outros poemas:

Vem tu, que és nívea, cá
A lua o é também.
O estrábico luar
É p'ra quem nada tem.

O sol a todos dá
O que dá a ninguém
Como as vagas do mar
Beijar a praia vêm.


e em "Passarinho", que era um poema meio boiola com um refrão que se repetia com pequenas variações de tempos em tempos:

Por que foges
Se vieste
Aplacar-me a solidão?
O que temes,
Ave agreste?
Pousa tu na minha mão!
(...)

Por que foges
Se vieste
Aplacar-me a solidão?
Teu intento
Esqueceste?
Por que foges, pois, então?


(...)

Mas eu sei, ave garrida,
Que tu tinhas de voar.
É teu papel nesta vida
Cortares, célere, o ar.

Voa então, ó passarinho,
Que é p'ra voar que existes;
Qual eu sou p'ra ser sozinho
E viver saudoso e triste.


Mas mesmo dentre essa série de poemas afetados de adolescente trevoso punheteiro há alguns que surpreendem. Como este "Soneto I":

Meu amor é abertura
Que houvesse louçã nogueira
Co'as suas raízes trigueiras
Infligido à terra dura.

Ele é qual chaga na pele
Que por mais que o tempo cubra
Deixa uma delgada e rubra
Cicatriz que não se dele.

Ele é qual um rio perene
Que em confins ínvios do mundo
Escondido a tudo jaz.

De ninguém a sede lene,
Mas é tão caudal e fundo
Que se secará jamais.


Há aí uma mistureba danada. Considerando o que eu andava lendo na época, certamente tem algo do Camões lírico, alguma coisa de Cecília (o tom equilibradamente melancólico e a redondilha) e uma ou outra coisa dos românticos ("louçã" é coisa do Casimiro, assim como esses símiles com plantinhas). De qualquer forma, este é provavelmente o melhor e menos mela-cueca de todos os sonetos que eu fazia nessa época.

Há um outro soneto (intitulado "Soneto" apenas) mais singelo de que eu não me lembrava e que me fez rir:

Esses lábios de relento,
Que cobrem teu sorrir lhano,
São qual se estendesse um pano
Que cobrisse o firmamento.

Mas eu bem sei o remédio
P'ra tal desconcerto ingente
(Que não pode a minha gente
Não ver o teu sorrir nédio!)

Vou morder os lábios teus
Até que não tapem mais
O teu riso gaio e ledo.

Pois não devem rubros véus
Fazer aos outros, jamais,
Do teu sorriso um segredo.


Ou este, decassílabo, que não integrou a antologia do trabalho, mas foi escrito a mão num verso do livrinho:

Se um sorriso não veste o meu semblante,
Deixai-o! É que entre suas vestes várias
Tem preferido a um sorriso galante
Dispor de mais discreta indumentária.

O seu estilo é sóbrio, moderado;
Mas não lhe falta bom gosto ou apuro:
Usa vestes que eu mesmo, com cuidado,
Teço co'o fio da tristeza e costuro.

Decerto preferis os grifes caros,
Esses sorrisos de linho, de seda,
De belos cortes, de vivo escarlate.

Mas não tomeis-me o rosto por avaro:
Não lhe cai bem veste por demais leda;
Deixai-o em paz! E a mim, seu alfaiate.


Também escrito no verso de uma página ficou este aqui:

Caminhando a ledos passos
Vens, por um campo de nardos;
Vêm tuas pernas, vêm teus braços,
Vêm teus belos olhos pardos.

Vem tua boca vespertina,
Vem também teu rosto amigo;
Vem teu riso de menina...
Só eu que não vou contigo!


e


Cuidei que do amor e de seus nocivos
Enganos, eu me fizera isento.
Mas, quanto mais dos teus olhos eu tento
Fugir, mais deles me torno cativo.


("Soneto")

e este aqui

Num dia claro e frio de maio
Fiz versos marrons como a terra que me circunscrevia.

E eram meus olhos astros
E meus pés eram brisa
E eu era fino e inócuo orvalho.


Transcrevi esse último só por causa do lance dos "versos marrons". Um prenúncio dos sonetos de merda?

Como o "Autocrítica", há alguns outros poemas que misturam verso livre irritadiço com vocabulário difícil, que era o meu penis enlarger quando adolescente. Por exemplo, "Crise de criatividade", um poema meio besta sobre falta de inspiração:

Não me vêm os versos.

O lápis, largado num canto,
Espera-me, qual concubina lasciva em leito que
[previamente perfumasse.
Chama-me e chama-me debalde.
Mira-me; não entende por que não lhe acode mais
O amante, quando o chama para junto de si.

Mas como eu haveria de explicar-lhe
Que não me vêm os versos?

(...)
Quoth the poet
Não me vêm os versos.

Tema que motivou um outro poema bem mais divertido do que esse:

Muniu-se o poeta da pena
A fim de escrever um poema
Marcado de gênio e de estro,
De estilo grandioso e eloquente.

Mas fugiu-lhe a musa - que pena! -
Contentou-se pois c'um poema
Vazio, idiota e canhestro
Que era uma besteira ingente!


("Poema nulo")

Há outros bem divertidos. "Mediocridade", por exemplo, que, guardadas as proporções, lembra um pouco Pessoa:

Eu sou um homem medíocre
De inteligência medíocre.
Também são estes meus versos
Completamente medíocres

Não sou alto, não sou baixo.
Não sou gordo, não sou magro.
Não sou feio, nem bonito:
Sou, tão somente, medíocre.

A mediocridade é tudo
E é ao mesmo tempo o nada
Como um bando de andorinhas
A voar pela alvorada.

(Esta rima é uma rima
Completamente medíocre.

E sou eu tão, tão medíocre
Que é também mediocridade
A única coisa em que
Excedo a mediocridade.


"A batalha", poema meio maluco, já demonstrava minhas tendências de versificação punhetística-parnasianesca-bestialógica:

Veio um bando de pintassilgos rubicundos
Enfrentar os melros tecnocratas do leste.
Vieram cá passarinhos de todo o mundo
Assistir ao épico litígio celeste!

Assumiu tal contenda a proporção exata
Das célebres batalhas de Homero e Virgílio.
A vitória pendia aos melros tecnocratas
Quando se viu no céu um inaudito brilho.

Rasgou os céus um enorme ser aquilino:
Tinha penas ígneas fulgentes como o sol.
Esquadrinhar não poderia o humano tino
Aquele falconídeo de cor de arrebol.

Terrível gancho então soltou a flama alada;
Tão forte que por toda plaga foi ouvido.
Eis que disse, quando já não se ouvia nada:
"Pássaros de merda, vocês estão fodidos!"


Enfim, chega. Fico por aqui pra vocês não perderem o respeito.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Tradução: "La Fontaine de Sang", de Baudelaire

A fonte de sangue

Me parece, por vez, correr-me o sangue aos montes
Tal qual o soluçar ritmado de uma fonte.
Eu o escuto correr, num murmúrio estendido,
Mas tateio-me em vão, sem achar-me ferido.

Da cidade através, qual num campo cercado,
Vai os blocos da rua tornando insulados,
A sede saciando de cada criatura,
Colorindo lá e cá de vermelho a Natura.

Muitas vezes ao vinho insidioso hei pedido
Que dormente fizesse o terror que me mina:
Mais clara torna a vista, e a orelha mais fina!

Procurei, pois, no Amor, o dormir esquecido;
Mas o Amor me é senão uma agulhada cama
Para dessedentar essas pérfidas damas!


O original:

La Fontaine de Sang


Il me semble parfois que mon sang coule à flots,
Ainsi qu'une fontaine aux rythmiques sanglots.
Je l'entends bien qui coule avec un long murmure,
Mais je me tâte en vain pour trouver la blessure.


À travers la cité, comme dans un champ clos,
Il s'en va, transformant les pavés en îlots,
Désaltérant la soif de chaque créature,
Et partout colorant en rouge la nature.


J'ai demandé souvent à des vins captieux
D'endormir pour un jour la terreur qui me mine;
Le vin rend l'oeil plus clair et l'oreille plus fine!


J'ai cherché dans l'amour un sommeil oublieux;
Mais l'amour n'est pour moi qu'un matelas d'aiguilles
Fait pour donner à boire à ces cruelles filles!




sexta-feira, 8 de julho de 2011

XXV

Hoje estava revirando minhas gavetas e encontrei uns poemas que eu escrevia com 15, 16 anos. Entre eles, esta jóia rara de que eu me havia completamente esquecido e que não sei por que nunca figurou entre os meus sonetos de merda. Digo isto porque este foi primeiríssimo a ser escrito, antes mesmo de eu pensar em fazer um livro de sonetos de merda. Trata-se do "Soneto do banheiro masculino", feito durante uma aula entediante de Física no meu segundo ano de colegial (em 2007, portanto) e imediatamente escrito na parede da segunda cabine do banheiro masculino do edifício Maffei da ETESP (vou passar lá qualquer dia pra ver se ele ainda existe).


No banheiro masculino
Há, na parede, palavras
Sobre queimação de sino
E outras putarias bravas.

Esses textos sodomitas
Que se veem por toda a parte
São do banheiro a desdita,
Da sujeira, baluarte.

Ante a sordidez verbal
Que cobre o banheiro todo
- termos feios como "pau",

"caralho", "buceta", "fodo"... -
fiz estes versos sapecas:
Lê-os enquanto defecas.
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